quarta-feira, novembro 22, 2006

nada

eu quero uma imagem fixa.
talvez um som
a pele lisa rompe e jorra sangue
o concreto abre e nao sai nada

domingo, novembro 12, 2006

Horror

____no momento da descoberta, eu vi o Horror; tornei-me a mim mesmo. O Horror era de olhos grandes esbugalhados, de um corpo magro esguio sem forma
O Horror se mostrou para mim atrás da porta, de respiração aflita [ eu não desviei os olhos e naquele instante eu permiti, não tive medo ] ele quis algo de mim
Sem saber meu olhar publicou a entrada, então o Horror se fez atrás dos vitrais, das janelas, dos móveis, ele estava sob minha cama, frequentava por baixo dos panos [ a cada encontro o Horror me torna um pouco inexistente ] ele sai de dentro dos armários com aqueles olhos.
...ter visto o Horror foi trazer a existência para o peito, é não ter nascido e respirar.
O Horror s'esconde pela casa, está nos detalhes imperceptíveis que só eu posso enxergar
[ Ele me fecha a alma.

domingo, novembro 05, 2006

Interstício

Se eu pudesse eu apagaria os sonhos. Eu apegaria aos sonhos, eu a pé ganharia os sonhos, eu a pá agarraria os sonhos. Eu, do pó gozaria os sonhos. Eu cantaria uma música muda e voaria num som infinito e lá o espaço físico estaria fora de questão. Eu pegaria um novelo e desnovelaria o tempo, desfiaria todos os sonhos de todas as avós e então choveria sobre um chão que nunca chegasse e a água se depositaria naquilo que não tem fim_______ que não tem ponto e a cada ponto desfeito da lã uma lágrima cairia de uma avó


Eu cresceria e m´abriria m´expandiria, do sonho apegado um punhado d´ar que do céu sendo eu despejaria avós encantadoras e a cada choque contra o chão inexistente um grito eu iria querer dar, mas não consigo, não consigo, e eu quero, sentir, mas não posso porque se eu gritar o sonho acaba

__pressa__

Está chovendo. Estou todo molhado. O trânsito está insuportável. Larguei carro. Cheguei. Toma meu coração. Desculpe te entregá-lo assim, ainda sujo de sangue.

segunda-feira, outubro 30, 2006

____________

Folha branca invisível que me espera naquilo que ainda não existe e que logo quando nasce morre. Natimorto.
Ouçamos a música!!!
É a solução. Porque o mundo gira como um vinil. Tudo não passa de som. Mesmo no vácuo.
Procuro nos recortes, meus recortes, cortes, pedaços de mim, uma logicidade. Quero contar uma história. Disseram-me que ela já esta contada, mas insisto.
Ela é tão linda. Nua.
Hoje estou visivelmente impossível.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Envelope Lacrado

Recebi um segredo ontem pela noite. De um alguém que nem sequer posso contar, não somente porque eu não tenho conhecimento, mas porque segredo é segredo e assim me foi ensinado.
Um bilhete me foi avisado. Penso, desde de muito cedo é verdade, que o segredo deve ser muito segredo mesmo, daqueles que a mãe só contava pro vigário. Mas como é que pode?
Recebo um bilhete e nem o tenho em mãos! Recebo um sentimento e nem bem sei seu genitor!
E agora como durmo? Não posso guardar algo que não saiba. Todos sabemos que a mulher engravida e lá dentro há um bebê.
O bilhete me atordoa.
Suba no ponto mais alto dessa cidade e grite seu segredo, escreva tudo em uma folha e após confeccionar um belo avião de papel lance-o aos ventos; lhe garanto: dormirei melhor.
Anuncio no abismo então, o amor que nos é escondido a cada bilhete ocultado-avisado.

segunda-feira, outubro 09, 2006

___Choro profundo___


Desculpa, eu chorar. Eu chorar assim tão invasivamente, olha o que eu estou te impondo!, meu Deus e eu nem sei de onde mesmo que viestes, eu não sei o que carregas contigo, das tuas angústias, do que se trata esse vaso de flores rutilantes em teus braços.
Sei que não existe um culpado e que não tenho o domínio.
É que eu preciso. Ainda não me conheces bem, e de certo que nunca irá, mas tentarei te acalmar dizendo que a gente acostuma-se com tudo. Mas sinto que comigo é diferente. Eu choro só de imaginar, de ver, há vezes em que um sopro mais gelado me deixa em prantos. Não sei o que é isso que está em mim que não seguro. Às vezes apenas acordar é o suficiente para meus olhos se afogarem num choro compriiiido e baixinho. Quase sem som.
Mas olha eu, dizendo essas coisas. Eu te assustei... é como uma bola de neve sabe, não, eu nunca vi neve na minha vida. Já até cheguei a duvidar que neve realmente existisse... Se me calo eu choro mais, preciso ir dizendo aos montes essas coisas que vão saindo assim, às vezes um pouco estranhas outras até mesmo convenientes mas em todos os casos sem muito controle meu porque nessas horas desconheço os significado de controle e de tudo e pra te dizer o bem da verdade me desculpe. Pareço uma folha seca. Calma, eu vou respirar e ficarei em silencio____________
Eu queria chorar todo choro que existe no mundo de uma vez só.
O choro ninguém explica. Quem nunca ouviu o barulho indecente de um ser que chorou. O choro é a voz do inconsciente. Choro é desespero. Contração. De onde vem o choro? O choro é a língua de Deus, a salvação. No fim, se a Torre de Babel tivesse sido construída, veriam que todos, sem exceção, chorariam e se entenderiam mesmo os das nacionalidades mais distintas. Deus virá nos salvar no exato momento em que todos nós chorarmos ao mesmo tempo; não está longe. Todos chorariam, o mundo entraria em contração e então talvez um novo Big-Bang surgisse, Deus choveria junto e inundaria o mundo por 40 anos.
Eu preciso chorar todo o choro do mundo de uma só vez.
Eu caí na armadilha. É sabido que nunca se deve começar qualquer coisa, não existe volta. O segundo é o que basta para se estar preso a toda eternidade. Meu erro foi ter chorado uma primeira vez. Quem ensina o choro? Não... Querido, choro não se ensina. Choro sai. Foi um susto tão grande sentir o choro: aquilo que saindo de mim me invadia toda, me transbordava de mim mesma. Eu chorei por quê? Chora-se por tanta coisa e eu nem sei. Não devia ter lhe dirigido sequer um oi, sequer devia ter pensado em lhe construir, em imaginar, sonhar é um erro. Agora estamos aqui presos a algo que nunca existiu; já até criamos uma relação, talvez até apelidos. Já temos memória: um do outro. E você vai chegar em casa e contar à sua família que durante o seu dia sufocante se deparou com uma mulher que sobre ti despejou todo o peso do que é um dia, pela primeira vez, ter chorado. E eu chegarei em casa com você na minha cabeça e não direi nada a ninguém porque ninguém...(choro profundo).

terça-feira, outubro 03, 2006

Partida-Chegada

Sou uma corrente de ar e deslizo por-entre-sobre tudo.
Minha vontade é infinita;
Sou as estradas invisíveis dos aviões.
Minha força é atômica e desenho no espaço aberto sem deixar escrituras
Só podem me sentir, mas se ver é um sentido por que não me vêem?
Minha cor é não-colorido, mas tenho coração.
Se anoitecer, sou tão rápido que fujo
Meu legado é não ter intenção.
Será? Até finjo me acreditar...Preenchido de uma paz que inunda
Meu quarto novo.
Sou solto demais, bóio numa gelatina prazerosa e amoleço as paredes [com o]
Movimento natural da respiração.
Sou o ar comprimido da contração-dilatação, diafragma do universo.
Me incrusto nas vias cimentais, sentimentais, da estrutura forte que [chamamos “concreto”]
Sumo
Misturo
Saio
Medito
Sigo, pois minha vontade é infinita
Meu ciclo é infindável
Sou as estradas invisíveis nos céus dos aviões, e
Meu coração é
Seu.

quarta-feira, setembro 06, 2006

____Procuro o quê?____

Meus pés amputados. Os meus cabelos tortos. Procuro por entre as mãos emaranhadas de fios soltos de cabelos. Procuro o quê? O que busco não existe. E meus cabelos só me caem. Soltam pelos dias infinitos sem razão. Porque não há razão. Nunca houve. Na essência da coisa não existe razão. O motivo nos foi escondido. A salvação é não encontrá-lo. Mas procuro de todas as formas. Minha última fixação é por cabelos e árvores. Ando tramando não-sei-o-que com as árvores. Elas já me perceberam. Eu me percebi. Nos meus trajetos diários confisco cada árvore da rua, classifico, estudo suas folhas, escolho um dia do ano, tento analisá-las, guardo as sementes, faço um projeto. Nunca me interessei tanto pelas sementes das árvores. Somente das árvores certas, já existem imitações e seria um erro fatal gastar o tempo infindável com as não-árvores. Para tudo existe um tempo útil. Eu tenho um tempo, o tempo que me é dado pelo cair dos cabelos. O tempo é a metáfora. A semente que é o tempo. Essas sementes que tenho aprisionado. Elas me olham gritando. Ditando-me o tempo. Há nas sementes a urgência. Em todas, mas nem todas___
Busco fora de mim o que não tem direção. Já a semente tem direção, ela cai reta como um fio de cabelo vai ao chão. O cabelo é metáfora: as folhas são os cabelos. As folhas me ditam o tempo. Folha é a semente evoluída. Eu procuro a evolução. Tenho o tempo cronometrado como o das árvores. As folhas que caem entre as mãos emaranhadas. As árvores também procuram. Eu procuro o quê meu Deus? Diga seu caminho árvore, a saída é te seguir. Minha cabeça está careca. O meu mapa se perdeu. Eu me.
Os meus projetos____minha soberania. Ter as sementes em mãos me torna pronto. Emancipo da questão, é tudo que um ser humano por almejar [ e as árvores já me sabem ]. De posse das sementes eu me torno pai e mãe, eu sou o dom da criação, eu sou Deus___eu seria mais que Deus se___se deus fosse___Eu é que sou. Planto as sementes, posso executá-las ainda proto-seres e ver o fio da vida, onde as respostas escondidas estão. Descubro puxando a frágil proto-planta da terra e expondo sua ainda proto-raiz à morte. Por sobre a mesa infértil eu deixo a proto-vida agonizar. Eu crio e descrio. Eu procuro o quê?
Todo o resto é metáfora, todo texto, a raiz é a metáfora, todo o resto. A salvação é a metáfora, é a raiz [ _____ e meus pés amputados ______ ]

sexta-feira, agosto 11, 2006

Ritmo

Posso ouvir sua respiração. A cada silêncio cortado uma música lenta e triste intercalada. O peito incha e murcha, como se dissesse: “veja quanto trabalho para continuar do teu lado, não paro nunca, não posso”. Guarda estas coisas na cabeça amor. Não precisa me dizer porque eu vou esquecer, ouve só a música lenta-triste, ouve só, sozinho no descansar do sono, lá onde nem eu nem você pode entrar. Sozinho no amanha sem nós. Posso ouvir sua respiração mais forte. O peito parece que vai explodir, já nem murcha, quase suicida, como se dissesse: “Nãoooooo, Nãooooo, Nãooooo...”. A música agora tá urgente. Aperta no ouvido, me desarmoniza. Mas ouço o estacato do seu peito só. Máquina potente. Só ouço ele. Como se sonhasse lá no impenetrável dos sonhos uma coisa que nem sei o nome. Que de tão feio é inimaginável. Só dói.
Posso ouvir sua respiração lenta-calma porque você acordou e me sorriu um sorriso lindo-acolhedor.

Ritmo

Posso ouvir sua respiração. A cada silêncio cortado uma música lenta e triste intercalada. O peito incha e murcha, como se dissesse: “veja quanto trabalho para continuar do teu lado, não paro nunca, não posso”. Guarda estas coisas na cabeça amor. Não precisa me dizer porque eu vou esquecer, ouve só a música lenta-triste, ouve só, sozinho no descansar do sono, lá onde nem eu nem você pode entrar. Sozinho no amanha sem nós. Posso ouvir sua respiração mais forte. O peito parece que vai explodir, já nem murcha, quase suicida, como se dissesse: “Nãoooooo, Nãooooo, Nãooooo...”. A música agora tá urgente. Aperta no ouvido, me desarmoniza. Mas ouço o estacato do seu peito só. Máquina potente. Só ouço ele. Como se sonhasse lá no impenetrável dos sonhos uma coisa que nem sei o nome. Que de tão feio é inimaginável. Só dói.
Posso ouvir sua respiração lenta-calma porque você acordou e me sorriu um sorriso lindo-acolhedor.

domingo, agosto 06, 2006

Outra Possibilidade

Mas será mesmo que eu não tenho esse direito?

Uma Possibilidade

Está difícil fechar os olhos.
Ou o coração.

E isso aqui é apenas um retrato dessa minha vida polaroide.
Um retrato e eu não posso parar por conta disso, não posso mais ficar pensando nessas coisas, coisas tão do umbigo, tão que apenas me emocionam e não fazem nada pelo resto, que é muito mais que esse todo torto que escreve.
Isso é um retrato muito pequeno. Olha só, tenho 23 anos, já não posso mais chorar com essas coisas tão insignificantes já que eu sei de tanta merda que está acontecendo agora, neste exato momento.
Sinto que a casca está ficando mais dura, é uma contra-ecdise de sentimentos que tenho, algo que aprisiona mais ainda meu ser. É doído, mas preciso. Olha eu de novo, doído; eu nunca soube o que realmente é algo doído.
Um bando de besteiras inúteis para os fracos.
Assim fica difícil até de mostrar a cara. Dá vergonha.

É que quando penso que tenho certeza de algo vejo que estava enganado e que minhas afirmações foram realmente infundadas.
É que a cada momento de segurança que tenho na vida eu vejo que me afasto rapidamente de mim mesmo. Vejo que a cada direito que me dou eu me afasto completamente daquilo que pensava ser; a cada comentário sobre alguém eu me vejo como espelho fiel às atitues repreendidas.
Então não há saídas, somente uma lacuna enorme com cor de vazio.

Não quero que falem nada sobre isso aqui. Nenhum comentário.
Obrigado.

sexta-feira, julho 14, 2006

[ Um Presente: Peixe meu para você ]

Eu te dei um peixe e ele voltou. Voltou pelas mãos de outro. Um outro. Só que o peixe não era apenas um peixe; era amor. Amor com o qual você não soube o que fazer, por isso deixou para um outro. Para que o bicho vivo respirasse, sofresse lá em um outro. Um alguém. É que o peixe é assim, é de uma natureza, um amor difícil, solitário, quase frio. E quando não se dá conta a gente ou joga no vaso e dá descarga, ou passa o amor para frente. Mas um outro alguém não suportou o peixe e por coincidência fez com que o amor chegasse até a mim. Eu reconheci. Eu sei das coisas que são minhas. Aquele amor, aquele peixe, era meu. Meu que dei para você, que você deu para alguém. Você foi incapaz. É, acho que realmente só os peixes sabem, na solidão fria de peixe, o que é o amor.

A João Cabral de Melo Neto

O amor comeu meus momentos mais felizes,
E eu permiti.
O amor me afastou das coisas
Que eu acreditava mais amar,
E eu permiti.

sexta-feira, maio 05, 2006

Sobre___Vida

Vida é mesmo coisa muito frágil. Eu já sabia. Sempre soube. Os momentos também. Já o corpo, a matéria viva-quente, a carne inconsciente, esta sim é que é forte; luta sem saber a causa, tenta manter-se viva a qualquer custo. No decorrer do dia, por exemplo...onde os momentos são quebrados a cada instante... Espero o ônibus, tem aquele sol característico, o pensamente um pouco distante, uma certa urgência de não sei ao certo...tudo bastante normal, mas aí ouço a batida, vejo o menino rodar no ar de meio-dia e quarenta e cair torto, cheio de sangue, quase que morto. O susto, o meu controle, o telefonema, as pessoas chegando, os comentários, o desespero, o tempo escorrendo pelos poros, a urgência, o corpo forte, mas a vida frágil. O meu choro.
O meu dia acabado não é nada, as preocupações tornam-se até vergonhosas frente ao atropelamento. Nunca vou me esquecer do corpo, um corpinho de 10 ou 11 anos, ali contraindo-se todo, tentando se reorganizar sem saber a causa, lutando.
Sempre soube da fragilidade da vida e dos momentos. Meus almoços em família por exemplo. Foram raras as vezes em que a garganta não fechava e descia uma forte vontade de chorar. Certa vez, sentindo que eu não daria conta de segurar, comecei a dizer algo, contei uma piada, para despistar. Na metade dela estava eu desabado em lágrimas. Ninguém entendeu. As pessoas em geral não compreendem. Almoçar em família para mim, ainda mais se for em silêncio, é muito difícil. Frágil momento apenas. Não se pode explicar isso, nem mesmo o que leva um jovem ter de ser atropelado antes do almoço. Talvez a comida daquele dia estivesse intoxicada. Vai saber o que é pior, não é?
Só sei que vida é mesmo coisa muito frágil.